Autismo de alto funcionamento: por que é tão difícil de identificar

Tem uma cena que muitos pais conhecem bem. A criança é inteligente, fala bem, vai razoavelmente na escola. Mas há algo que não se encaixa. Ela tem dificuldade com amizades que parecem fluir naturalmente para as outras crianças. Fica sobrecarregada em situações que outras pessoas nem percebem. Prefere a rotina com uma intensidade que vai além do esperado. E mesmo assim, quando os pais levam essa preocupação ao pediatra, a resposta costuma ser: "É só jeito dela. Ela é inteligente demais para ter autismo."
Esse raciocínio está errado. E tem atrasado o diagnóstico de muitas pessoas por anos, às vezes décadas.
O autismo de alto funcionamento, hoje mais corretamente chamado de TEA nível 1, é uma forma do transtorno do espectro autista em que as dificuldades são reais, mas menos visíveis. Justamente por isso, passam despercebidas com uma frequência que ainda surpreende quem trabalha na área.
O que o "alto funcionamento" realmente significa
Antes de mais nada: "autismo de alto funcionamento" não é um diagnóstico formal. O DSM-5, o manual diagnóstico usado pelos profissionais de saúde mental, classifica o autismo por níveis de suporte necessário (1, 2 ou 3) em vez de usar termos como leve, moderado ou severo.
O nível 1 descreve pessoas que precisam de algum suporte, mas conseguem funcionar de forma relativamente independente no dia a dia. Não têm déficit intelectual associado e, em muitos casos, desenvolvem habilidades de linguagem dentro do esperado. Por isso a expressão popular "alto funcionamento" acabou pegando. Mas ela carrega um problema sério.
Quando dizemos que alguém "funciona bem", corremos o risco de invisibilizar o esforço que essa pessoa faz para funcionar. E esse esforço, em muitos casos, é enorme.
Por que os sinais passam despercebidos por tanto tempo
O TEA nível 1 escapa ao diagnóstico por algumas razões que, juntas, constroem um quadro bem consistente.
Os sinais são sutis e se parecem com traços de personalidade. Uma criança que prefere brincar sozinha parece "introvertida". Um adulto com dificuldade em conversas abertas parece "tímido" ou "sério". A sensibilidade a barulhos, texturas ou ambientes caóticos é lida como frescura ou ansiedade. Sem um olhar treinado, esses padrões raramente levantam suspeita de autismo.
Há também a questão do estereótipo. O autismo ainda carrega, no imaginário coletivo, uma imagem muito específica, geralmente associada a dificuldades mais evidentes de comunicação, comportamento repetitivo explícito ou déficit intelectual. Quando a pessoa não se encaixa nesse estereótipo, a hipótese de TEA simplesmente não é considerada.
Por fim, ansiedade, depressão, TDAH e TOC compartilham vários sintomas com o TEA nível 1, e são diagnosticadas com muito mais frequência. Não é raro que uma pessoa passe anos tratando ansiedade social sem nunca receber (ou levantar) a hipótese de autismo.
O mascaramento: quando aprender a "se encaixar" esconde o diagnóstico
Esse é provavelmente o fator mais subestimado de todos.
O mascaramento, também chamado de camuflagem, é o processo pelo qual uma pessoa aprende a disfarçar suas dificuldades para parecer mais "normal" socialmente. Isso pode incluir imitar a linguagem corporal de outras pessoas, ensaiar frases para situações sociais, forçar contato visual mesmo que seja desconfortável, ou suprimir comportamentos repetitivos em público.
Muitas pessoas com TEA nível 1 aprendem a fazer isso com tanta eficiência que passam em praticamente qualquer situação social, pelo menos por um tempo. O problema é o custo. Após uma interação longa, essas pessoas costumam precisar de horas de recuperação. A sensação de exaustão depois de um dia de trabalho ou escola pode ser completamente desproporcional ao que aconteceu objetivamente.
O mascaramento é especialmente comum em mulheres e meninas. Uma pesquisa publicada na revista Autism (Hull, Mandy & Lai, 2017) mostrou que meninas com TEA tendem a observar e imitar comportamentos sociais com mais facilidade do que meninos, o que faz com que seus sintomas sejam ainda menos óbvios. Esse padrão ficou conhecido como o fenótipo feminino do autismo: uma apresentação do transtorno que simplesmente não estava no radar porque os critérios diagnósticos históricos foram desenvolvidos com base em amostras predominantemente masculinas.
Sinais de autismo de alto funcionamento que passam despercebidos
Os sinais do TEA nível 1 não aparecem de forma isolada. É a combinação deles, e a consistência ao longo do tempo, que orienta a investigação diagnóstica.
Dificuldade em conversas com subentendidos, ironia ou contexto implícito é um padrão frequente. A pessoa entende o que foi dito literalmente, mas perde o que estava nas entrelinhas, gerando mal-entendidos que ela mesma não consegue explicar.
O hiperfoco em interesses específicos também chama atenção, com um grau de profundidade que vai bem além do hobby. Não é raro que pessoas com TEA nível 1 se tornem especialistas em áreas muito específicas, o que pode parecer talento puro, mas muitas vezes vem acompanhado de dificuldade em manter interesse fora desses tópicos.
A necessidade intensa de rotina e previsibilidade é outro sinal. Mudanças de plano de última hora causam um nível de desconforto que parece exagerado para quem está de fora, mas é completamente genuíno para quem vive isso.
Sensibilidade sensorial também merece atenção: sons, texturas, cheiros ou luzes que passam despercebidos para a maioria das pessoas podem ser fisicamente perturbadores.
E há o esgotamento social desproporcional. Interações que outras pessoas consideram normais ou até agradáveis podem ser cognitivamente exaustivas para quem tem TEA, especialmente quando envolvem mascaramento contínuo.
O que fazer se você se reconhece, ou reconhece alguém
Um artigo nunca substitui uma avaliação. Mas ele pode ser o ponto de partida para uma pergunta que precisa ser feita.
Buscar avaliação com profissionais especializados em TEA significa, geralmente, uma avaliação neuropsicológica que mapeia o funcionamento cognitivo, social e comportamental da pessoa, somada a uma entrevista clínica detalhada. Não existe exame de imagem ou laboratorial que detecte o transtorno: o diagnóstico é clínico, construído a partir da história de vida e do funcionamento atual.
Receber um diagnóstico de TEA na vida adulta, ou para um filho, não é uma sentença. Para muitas pessoas, é exatamente o oposto. É, finalmente, um nome para algo que sempre existiu. É entender por que certas coisas sempre foram mais difíceis do que pareciam para os outros. A partir daí, é possível buscar suporte adequado em vez de continuar tentando encaixar algo que nunca coube.
O diagnóstico não muda quem a pessoa é. Ele muda o que ela pode fazer com isso.
Se você tem dúvidas sobre autismo de alto funcionamento em seu filho ou em você mesmo, a Clínica Novatrilha realiza avaliações neuropsicológicas em Barueri. Entre em contato para entender como funciona o processo.
Referências
American Psychiatric Association. (2022). Diagnostic and statistical manual of mental disorders (5th ed., text rev.). APA Publishing.
Hull, L., Mandy, W., & Lai, M.-C. (2017). Behavioural and cognitive sex/gender differences in autism spectrum condition and typically developing males and females. Autism, 21(6), 706–727. https://doi.org/10.1177/1362361316669087
Lai, M.-C., Lombardo, M. V., Auyeung, B., Chakrabarti, B., & Baron-Cohen, S. (2015). Sex/gender differences and autism: Setting the scene for future research. Journal of the American Academy of Child & Adolescent Psychiatry, 54(1), 11–24. https://doi.org/10.1016/j.jaac.2014.10.003
Livingston, L. A., & Happé, F. (2017). Conceptualising compensation in neurodevelopmental disorders: Reflections from autism spectrum disorder. Neuroscience & Biobehavioral Reviews, 80, 729–742. https://doi.org/10.1016/j.neubiorev.2017.06.005
Organização Mundial da Saúde. (2022). CID-11: Classificação Internacional de Doenças (11ª revisão). OMS.


