Além da dislexia: discalculia, disgrafia e outras dificuldades de aprendizagem que passam despercebidas

Quando uma criança tem dificuldade para ler, a dislexia é, quase sempre, o primeiro nome que vem à cabeça. E faz sentido: ela é o transtorno de aprendizagem mais estudado e mais conhecido pela opinião pública. Mas a leitura não é a única habilidade que pode ser afetada por um transtorno específico de aprendizagem.
Há crianças que leem bem, escrevem com razoável fluência e mesmo assim travam completamente diante de uma conta de somar. Outras têm dificuldade especialmente com a escrita à mão, com letras ilegíveis mesmo após anos de prática. Outras ainda confundem letras ao escrever, mesmo conseguindo lê-las sem problemas. Em todos esses casos, pode haver um transtorno específico de aprendizagem por trás da dificuldade, e o diagnóstico correto muda completamente a forma de ajudar a criança.
Este artigo apresenta os principais transtornos de aprendizagem além da dislexia, com foco nos sinais que pais e professores podem observar e no que fazer quando algo parece errado.
O que são os transtornos específicos de aprendizagem?
Os transtornos específicos de aprendizagem (TEA, sigla diferente da usada para o autismo) são condições neurobiológicas que afetam habilidades acadêmicas específicas em pessoas com inteligência dentro da faixa esperada. Ou seja: a criança não tem déficit intelectual, tem acesso à escolarização regular, foi exposta ao conteúdo, e ainda assim apresenta uma dificuldade persistente e desproporcional em uma área.
O DSM-5-TR (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, 5ª edição, revisada) classifica esses transtornos em três grandes grupos, a partir da habilidade afetada: leitura (dislexia), escrita (disgrafia e disortografia) e matemática (discalculia). Eles podem aparecer isolados ou em combinação, e frequentemente coexistem com TDAH.
Dislexia: o mais conhecido, mas nem sempre bem compreendido
A dislexia afeta a habilidade de decodificar palavras escritas, ou seja, de converter os símbolos gráficos (letras) em sons. A criança lê com lentidão, troca ou omite letras e sílabas, tem dificuldade para compreender o que leu e costuma evitar situações que exigem leitura em voz alta.
É importante esclarecer: dislexia não tem relação com inteligência, visão ruim ou falta de esforço. O processamento fonológico (a capacidade de manipular os sons da língua) é a área afetada, e isso não depende de quanto a criança se dedica.
Estima-se que a dislexia afete entre 5% e 17% da população em idade escolar, dependendo dos critérios diagnósticos utilizados (Shaywitz & Shaywitz, 2020). O diagnóstico é realizado por avaliação neuropsicológica e/ou fonoaudiológica, e a intervenção mais eficaz é a instrução fônica explícita e sistemática.
Discalculia: a "dislexia dos números"
A discalculia é um transtorno específico de aprendizagem que afeta a compreensão e a manipulação de números e conceitos matemáticos. Apesar de ser tão prevalente quanto a dislexia, com estimativas entre 3% e 6% da população escolar (American Psychiatric Association, 2022), ela é muito menos conhecida e muito menos diagnosticada.
Sinais de alerta
Os sinais da discalculia vão além de "não gostar de matemática". Incluem:
- Dificuldade persistente em compreender o que um número representa (seu valor, sua posição, sua relação com outros números)
- Confusão ao realizar cálculos simples, mesmo com o uso dos dedos ou outros apoios visuais
- Dificuldade para entender conceitos como "mais", "menos", "maior" e "menor"
- Problemas com sequência numérica e com operações que envolvem mais de uma etapa
- Ansiedade intensa e desproporcional diante de qualquer atividade matemática
- Dificuldade para estimar distâncias, tempo e quantidades no cotidiano
O que acontece no cérebro
Estudos de neuroimagem mostram que, durante tarefas numéricas, crianças com discalculia apresentam menor ativação nos lóbulos parietais, especialmente no sulco intraparietal, região crítica para o processamento da magnitude numérica (Butterworth et al., 2011). A condição tem forte componente hereditário.
Como ajudar
A intervenção para discalculia envolve adaptação curricular, suporte psicopedagógico e uso de estratégias concretas e visuais para o ensino de conceitos matemáticos. A criança não aprende "menos", aprende de forma diferente, e a escola precisa oferecer os recursos adequados para isso.
Disgrafia: quando a escrita manual é o problema
A disgrafia afeta especificamente a qualidade da escrita à mão. A criança tem dificuldade com o traçado das letras, a pressão no papel, o espaçamento entre palavras e a organização do texto na página. A caligrafia é ilegível ou muito abaixo do esperado para a idade, mesmo após prática extensiva.
É fundamental distinguir disgrafia de preguiça ou falta de capricho. A dificuldade é neuromotora: envolve a coordenação motora fina e a tradução do pensamento para o movimento físico da escrita.
Sinais de alerta
- Letra ilegível mesmo quando a criança se esforça
- Postura estranha ao segurar o lápis
- Lentidão excessiva ao escrever
- Fadiga ao escrever por períodos curtos
- Mistura de letras maiúsculas e minúsculas sem intenção
- Texto bem organizado oralmente, mas incoerente quando escrito
A disgrafia costuma ser avaliada em conjunto com a avaliação neuropsicológica e pode se beneficiar de intervenção fonoaudiológica e de terapia ocupacional.
Disortografia: confusão com as letras, não com os traçados
A disortografia é frequentemente confundida com a disgrafia, mas são condições distintas. Na disgrafia, o problema é motor (o traçado, a forma das letras). Na disortografia, o problema é a representação ortográfica correta das palavras: a criança troca letras com sons semelhantes (b/d, p/q, m/n), omite ou acrescenta letras e tem dificuldade com as regras de ortografia, independente de como escreve fisicamente.
Muitos casos de disortografia ocorrem junto com a dislexia, porque ambas envolvem o processamento fonológico. Mas pode haver disortografia sem dislexia, especialmente em línguas com ortografia irregular como o inglês. No português, que tem ortografia mais regular, a distinção é ligeiramente diferente.
Comorbidades: quando os transtornos aparecem juntos
É comum que esses transtornos coexistam. Uma criança pode ter dislexia e disortografia simultaneamente, ou discalculia e TDAH, por exemplo. O TDAH, em especial, é uma comorbidade frequente com todos os transtornos específicos de aprendizagem, o que pode complicar tanto o quadro clínico quanto o diagnóstico diferencial.
Por isso, a avaliação neuropsicológica completa é fundamental: ela mapeia não apenas as áreas afetadas, mas também as habilidades preservadas, as funções executivas, a atenção e outros aspectos cognitivos que influenciam o aprendizado.
Por que o diagnóstico faz diferença
Sem diagnóstico, crianças com transtornos de aprendizagem costumam ser vistas como preguiçosas, desatentas ou sem capacidade. Elas crescem ouvindo que "não se esforçam o suficiente" quando, na verdade, estão se esforçando muito mais do que os colegas para alcançar resultados semelhantes.
O diagnóstico correto permite:
- Que a escola ofereça adaptações curriculares e estratégias pedagógicas adequadas
- Que a família entenda e apoie a criança de forma mais efetiva
- Que a intervenção seja direcionada ao que realmente está em jogo
- Que a criança desenvolva uma narrativa mais precisa sobre si mesma, reduzindo o impacto na autoestima e na saúde mental
Quando buscar avaliação
Fique atento se a criança:
- Tem dificuldade persistente em uma área específica (leitura, escrita ou matemática) mesmo com bom acompanhamento escolar
- Apresenta desempenho muito abaixo do esperado para a idade em tarefas acadêmicas específicas
- Evita atividades relacionadas à área de dificuldade (deixa de ler, recusa fazer dever de matemática)
- Demonstra ansiedade, frustração intensa ou queda de autoestima relacionada ao desempenho escolar
A avaliação deve ser feita por neuropsicólogo ou psicólogo com formação em avaliação de aprendizagem. Em muitos casos, é indicado um trabalho interdisciplinar com fonoaudiólogo e psicopedagogo.
A Novatrilha pode ajudar
A Clínica Novatrilha, em Barueri (SP), realiza avaliação neuropsicológica completa para crianças e adolescentes com dificuldades de aprendizagem. Nossa equipe avalia todas as habilidades envolvidas no processo de aprendizagem: leitura, escrita, matemática, funções executivas, atenção e memória, gerando um laudo detalhado com hipóteses diagnósticas e orientações para família e escola.
Se você tem dúvidas sobre o desempenho escolar do seu filho, entre em contato com a Novatrilha. O primeiro passo é uma conversa.
Referências
American Psychiatric Association. (2022). Diagnostic and statistical manual of mental disorders (5th ed., text rev.). https://doi.org/10.1176/appi.books.9780890425787
Butterworth, B., Varma, S., & Laurillard, D. (2011). Dyscalculia: From brain to education. Science, 332(6033), 1049–1053. https://doi.org/10.1126/science.1201536
Shaywitz, S. E., & Shaywitz, B. A. (2020). Dyslexia: A disorder of reading. Annals of Dyslexia, 70(3), 301–322. https://doi.org/10.1007/s11881-020-00208-8
Snowling, M. J., & Hulme, C. (2012). Annual research review: The nature and classification of reading disorders. Journal of Child Psychology and Psychiatry, 53(5), 593–607. https://doi.org/10.1111/j.1469-7610.2011.02515.x


