Sequelas cognitivas pós-COVID: o que é o brain fog e como a avaliação neuropsicológica ajuda

Você teve COVID há alguns meses, se recuperou dos sintomas físicos, voltou à rotina, e mesmo assim sente que algo não voltou ao normal. Esquece o que ia falar no meio da frase. Perde o fio da leitura e precisa reler o mesmo parágrafo três vezes. Entra em uma sala e não lembra o que foi buscar. Demora mais para resolver tarefas que antes eram automáticas, e no fim do dia se sente esgotado por um esforço mental que antes nem existia.
Se isso soa familiar, você não está imaginando coisas, e não está sozinho. Esse conjunto de queixas tem um nome popular, brain fog, ou névoa cerebral em português, e é uma das sequelas mais relatadas por quem passou pela COVID-19.
O que é o brain fog
Brain fog não é um diagnóstico médico formal, e sim um termo que reúne um grupo de dificuldades cognitivas: falha de atenção e concentração, lentidão para pensar e responder, dificuldade de encontrar palavras, esquecimentos frequentes de coisas recentes e uma sensação geral de que a mente está "enevoada", funcionando com esforço extra e menos nitidez do que antes (Silva et al., 2023).
Um ponto importante: não se trata de uma perda de memória clássica, do tipo que aparece nas demências. A pessoa não esquece quem é, nem se perde em lugares conhecidos. O que acontece é uma queda no desempenho de funções cognitivas específicas, especialmente atenção, velocidade de processamento e memória de trabalho (aquela que usamos para segurar informações por alguns segundos enquanto raciocinamos). É uma mudança em relação ao próprio padrão anterior de funcionamento, e é justamente essa comparação, "eu não era assim", que costuma incomodar tanto.
Por que a COVID afeta a mente
Ainda há muito sendo estudado, mas a pesquisa já aponta alguns caminhos pelos quais o vírus pode comprometer o funcionamento cognitivo.
Um deles é a oxigenação. Em quadros mais graves, a queda na saturação de oxigênio afeta o sistema nervoso central, que é extremamente sensível à falta de oxigênio, e isso repercute nas funções cognitivas (Costa & Andrade, 2022). Além disso, a resposta inflamatória intensa que a COVID pode provocar, a chamada neuroinflamação, e as alterações na circulação sanguínea do cérebro também estão entre os mecanismos investigados.
Vale destacar que o brain fog não aparece apenas em quem foi internado ou teve a forma grave da doença. Pessoas com quadros leves ou moderados também relatam essas dificuldades, embora estudos mostrem que pacientes hospitalizados tendem a apresentar comprometimentos mais marcados em atenção, funções executivas e memória (Krishnan et al., 2022). Quando essas queixas persistem por semanas ou meses após a fase aguda, entram no que se convencionou chamar de COVID longa.
Como se sabe que é real: a avaliação neuropsicológica
Uma das partes mais difíceis do brain fog é que ele é invisível. Os exames de imagem podem vir normais, a pessoa "parece bem", e muitas vezes ela própria começa a duvidar se não está exagerando ou inventando. Familiares e até profissionais podem minimizar: "é só cansaço", "é da idade", "é estresse".
É aqui que a avaliação neuropsicológica entra. Ela é o instrumento capaz de transformar uma queixa subjetiva em dado objetivo. Por meio de um conjunto de testes padronizados, o neuropsicólogo mede separadamente cada função cognitiva: atenção, memória, linguagem, velocidade de processamento e funções executivas. Os resultados são comparados com normas adequadas à idade e à escolaridade da pessoa, o que permite dizer, com base em números, se o desempenho está de fato abaixo do esperado e em quais áreas.
Estudos que aplicaram baterias neuropsicológicas em pacientes pós-COVID confirmaram objetivamente esses déficits, com destaque para prejuízos de atenção e de funções executivas (Ferrucci et al., 2022). Ou seja: não é impressão. A avaliação dá nome, medida e validação a algo que a pessoa vinha sentindo sem conseguir provar.
Esse reconhecimento tem valor terapêutico por si só. Saber que a dificuldade é real, tem uma causa e um perfil definido, costuma aliviar a angústia de quem se culpava por "não estar se esforçando o suficiente".
O processo, na prática
A avaliação começa com uma entrevista clínica, a anamnese, em que o neuropsicólogo conhece a história da pessoa: como foi o quadro de COVID, quais eram as condições cognitivas antes da doença, escolaridade, profissão, rotina e queixas atuais. Esse contexto é essencial, porque o objetivo não é medir a inteligência em abstrato, e sim comparar o funcionamento atual com o padrão prévio daquela pessoa.
Em seguida vêm os testes, aplicados ao longo de uma ou mais sessões. Cada um foca em uma função diferente, e o resultado final não é uma nota única nem um rótulo, mas um perfil detalhado que mostra onde estão as dificuldades e onde estão as forças preservadas. Esse perfil é o que orienta os passos seguintes.
Em muitos casos, a avaliação faz parte de uma investigação mais ampla, junto a médicos, que pode incluir avaliação neurológica e exames complementares. O neuropsicólogo não substitui essas etapas, e sim contribui com a peça cognitiva do quebra-cabeça.
Tem tratamento, e a notícia é boa
Diferentemente de condições neurodegenerativas, o brain fog pós-COVID tende a ser reversível, ou pelo menos a melhorar de forma significativa com o tempo e com estimulação adequada (Costa & Andrade, 2022).
A reabilitação neuropsicológica trabalha exatamente nesse sentido. A partir do perfil traçado na avaliação, são propostos exercícios cognitivos direcionados às funções mais afetadas, aproveitando a capacidade do cérebro de se reorganizar, a chamada plasticidade cerebral. O trabalho não é genérico: ele mira os alvos certos, o que torna o processo mais eficiente do que "exercitar a mente" de forma solta.
Junto disso, cuidados que sustentam o funcionamento cognitivo fazem grande diferença: sono de qualidade, atividade física regular, manejo do estresse e da ansiedade (que muitas vezes acompanham o quadro e pioram a percepção de névoa) e retomada gradual das demandas, sem a cobrança de voltar ao ritmo de antes de um dia para o outro. A recuperação costuma ser progressiva, e ter um plano estruturado ajuda a não confundir os altos e baixos normais do processo com uma piora real.
Quando procurar ajuda
Vale buscar uma avaliação neuropsicológica quando, após a COVID, surgem mudanças persistentes de memória, atenção, concentração ou raciocínio que se mantêm por semanas e atrapalham o trabalho, os estudos ou a vida cotidiana, mesmo depois que os sintomas físicos passaram.
Se você "voltou ao normal" no corpo, mas sente que a mente ficou mais lenta, mais dispersa ou menos confiável do que era, esse é exatamente o tipo de situação que a avaliação esclarece. Entender o que está acontecendo é o primeiro passo para recuperar a clareza, e para parar de se culpar por algo que tem explicação.
A Clínica Novatrilha pode ajudar
Na Clínica Novatrilha, em Barueri, realizamos avaliação neuropsicológica de adultos, incluindo casos de queixas cognitivas após a COVID-19. Mapeamos com cuidado o perfil de atenção, memória e funções executivas de cada paciente para dar clareza sobre o que está acontecendo e orientar os próximos passos, seja a reabilitação, seja o encaminhamento adequado. Se você percebe que a névoa mental não passou depois da recuperação física, entre em contato e converse com nossa equipe sobre como a avaliação pode ajudar.
Referências
Costa, F. R., & Andrade, L. M. (2022). "Brain fog" na síndrome pós-COVID-19: uma revisão bibliográfica. Debates em Psiquiatria. https://revistardp.org.br/revista/article/view/1109
Ferrucci, R., et al. (2022). Long-lasting cognitive abnormalities after COVID-19. Brain Sciences, 12(2), 235. https://doi.org/10.3390/brainsci12020235
Krishnan, K., et al. (2022). Neurocognitive profiles in patients with persisting cognitive symptoms associated with COVID-19. Archives of Clinical Neuropsychology, 37(4), 729-737. https://doi.org/10.1093/arclin/acac054
Silva, R. C., et al. (2023). Alterações cognitivas em pacientes pós-COVID-19: um estudo de revisão narrativa. Boletim de Psicologia. https://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1808-42812025000100201


